O Abajur Lilás em realismo “sem cortes” Vanessa Martins de Souza
22.03.2008
Quem nunca entrou numa zona do baixo meretrício, ao menos, já pode dizer que sentiu o clima desse tipo de local depois de assistir a O Abajur Lilás, da Cia. Independente de Teatro (SP). O grupo quase levou às últimas conseqüências (deixando apenas a lacuna do “fundamental”, evidentemente) a sensação de estar num prostíbulo da boca do lixo.
O espaço da Casa Vermelha foi transformado num convidativo “puteiro”, com perdão da palavra; mas foi assim, sem firulas, que fomos chamados a entrar pelo ator Paulo Américo quando nos recepcionou recitando solenemente o texto de sua autoria. Dizia ele: “ Dê uma pausa na novela. Deixe que eu te mostre o real, te apresente o submundo. Siga os luminosos...”
Completamente ambientada como se fosse um bordel, ao entrar, a montagem já dá a entender que não quer que escapemos da vibração emitida por uma casa de tolerância. Mesa e cadeiras dispersas como num local de diversão, música ao vivo e uma “prostituta” sorrindo e exibindo-se para os freqüentadores compuseram a cena. Em frente às mesas, o cenário da trama de Plínio Marcos: o quarto de ofício e morada das prostitutas. Enquanto o texto não vem, a montagem vai longe no tocante ao realismo. Os atores simulam na cama um ato sexual satírico, que se revela dos mais engraçados aos olhos dos despojados de pudores.
Entra o “cafetão-veadão” e a descontração dá lugar ao tenso e cortante texto de Plínio Marcos. O ator logo já dá sinal de que faz uma ótima parceria com seu personagem, perfeitamente caracterizado como uma “bicha” sádica. As três prostitutas também não decepcionam, bem como o restante do elenco. Inclusive, mostram-se bem à vontade em seus papéis de “mulheres da vida” a ponto de se livrarem de suas peças de roupas nos intervalos promovidos pela direção de Fernanda Levy. Pois, foram intercalados momentos de descontração com direito a música ao vivo, strip-tease parcial das “meninas” e até a uma “branquinha”, que foi aceita pelos espectadores mais entusiasmados. E vale ressaltar que o erotismo aqui presente não soa gratuito por motivos óbvios, afinal, estamos num bordel.
Esse recurso de tornar O Abajur Lilás um espetáculo mais sensorial caiu muito bem, levando-se em conta que o texto costuma ser bastante revisitado pelas companhias teatrais, podendo não representar uma novidade para o assíduo espectador de teatro. O potencial de violência e tensão também foi aproveitado ao extremo para tornar essa montagem de um realismo impactante. Os atores dedicam-se com afinco a contagiar o ambiente com uma carga dramática levada ao auge. Por jogar com vontade o espectador em todas as mazelas e vulgaridades do submundo da prostituição, essa versão para O Abajur Lilás demonstra que bem acerta o alvo avistado por Plínio Marcos.
O Abajur Lilás
Teatro - Drama - Adulto - 80 minutos
20/03 às 18h, 21/03 às 15h, 22/03 às 21h e 23/03 às 12h
Ingressos: R$ 20,00 e 10,00
Casa Vermelha - Largo da Ordem
|